Facções criminosas dominam prefeituras no Nordeste e mandam matar prefeito; Saiba mais

A execução do prefeito de João Dias no Rio Grande do Norte, Francisco Damião de Oliveira conhecido como Marcelo, expôs com brutalidade um fenômeno silencioso, em expansão no interior do Nordeste: a infiltração de facções criminosas em prefeituras como estratégia de poder e lucro. O caso, investigado pela Polícia Civil e pela Polícia Federal, envolve nomes ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e escancara como o crime organizado tem transformado o sistema político local em instrumento de dominação territorial.
Um crime político com DNA do PCC
Em agosto de 2024, em plena campanha pela reeleição, Marcelo foi assassinado ao lado do pai em João Dias, cidade com pouco mais de 2 mil habitantes, localizada na divisa entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba. As investigações apontam que a ordem partiu de traficantes com atuação internacional e ligação direta com Marcola, o líder máximo do PCC.
Marcelo havia rompido com um acordo político selado na eleição anterior. Em 2020, ele foi eleito prefeito em uma chapa apoiada por Francisco Deusamor Jácome, criminoso condenado por tráfico internacional, que mesmo foragido e procurado pela Interpol, circulava livremente pela cidade durante a campanha, promovendo sua irmã, Damária Jácome, como vice-prefeita.
Em vídeos da época, Deusamor anunciava:
“O futuro prefeito de João Dias, Marcelo Oliveira, e a minha irmã, Damária Jácome, a futura vice-prefeita de João Dias”.
Áudios interceptados pela polícia revelam as cifras envolvidas:
“230 eu dei pra você pagar as contas. Agora eu vou lhe dar mais 500 mil reais. Pense por esse lado”, disse Deusamor em uma gravação.
Segundo os investigadores, o dinheiro seria uma espécie de “indenização” para que Marcelo renunciasse ao cargo, o que acabou acontecendo em junho de 2021, seis meses após a posse. Damária assumiu o controle da prefeitura e, conforme declarações públicas, dedicou o mandato aos seus irmãos, já envolvidos no tráfico.
“Dedico esse dia aos meus sete irmãos, e de maneira especial aos meus dois irmãos, Deusamor e Leidjan”.
Gestão paralela e domínio das verbas públicas
De acordo com a Polícia Civil do RN, mesmo antes da renúncia de Marcelo, a família Jácome já comandava os bastidores da administração municipal.
“Eles idealizaram os quatro anos da gestão, ainda durante a campanha”, afirma o delegado Carlos Michel Fonseca.
O controle da prefeitura servia para movimentar e lavar recursos obtidos com o tráfico. Segundo o IBGE, João Dias teve uma receita de R$ 23 milhões em 2023, entre repasses federais e arrecadação local. “As facções perceberam que tomar o poder político pode gerar vantagens econômicas permanentes”, alertou o secretário nacional de Segurança Pública, Mário Sarrubbo.
A estratégia se repete em outros municípios. Um relatório confidencial da Polícia Federal, ao qual o Espião do Sertão teve acesso, aponta que facções criminosas interferiram nas eleições de pelo menos 42 cidades brasileiras em 2024 — um número considerado alarmante por investigadores.
Em São Paulo, base tradicional do PCC, o grupo teria investido até R$ 8 bilhões no financiamento de candidaturas municipais, conforme informações do Ministério da Justiça.
Denúncia, retaliação e morte
Em 2022, a Justiça anulou a renúncia de Marcelo e ele reassumiu a prefeitura. Foi quando começou a colaborar com as investigações e, segundo fontes da polícia, entregou o paradeiro dos irmãos foragidos, que seriam mortos meses depois em confronto com policiais na Bahia.
Em 2024, Marcelo se candidatou novamente à prefeitura, agora pelo União Brasil. Disputava contra a própria ex- vice, Damária, que buscava retomar o controle do município pelo Republicanos. A tensão escalou.
“Ele dizia que era ameaçado pelos irmãos dela. A cidade virou um campo de guerra político”, afirmou o delegado Alex Wagner Freire.
O assassinato do prefeito foi a última cartada de um grupo que viu escapar das mãos o controle da cidade, mas que ainda mantém influência e medo sobre a população local.
O crime como poder político
pequenas, onde a fiscalização é baixa e o dinheiro público é alto”, afirmou um promotor ouvido sob sigilo pela reportagem.
A morte de Marcelo não é um episódio isolado, mas parte de um novo capítulo da criminalidade organizada no Brasil: o crime com CNPJ, mandato e estrutura oficial.
O Espião do Sertão seguirá acompanhando os desdobramentos desse caso e de outras investigações que revelam como o crime está se infiltrando nas estruturas mais frágeis da política brasileira.
HW COMUNICAÇÃO
Fonte: Espião do Sertão
Deixe uma resposta
Os campos obrigatórios estão marcados *
Você precisa estar logado para enviar um comentário
Mais notícias
PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE





Seja o primeiro a escrever um comentário.