A prisão de presidentes e executivos da Andrade Gutierrez e da Odebrecht, nesta sexta-feira (22), gerou novas incertezas sobre o futuro das maiores empreiteiras do país, responsáveis por obras importantes como as da Olimpíada de 2016 — quando o Rio de Janeiro será a primeira cidade da América do Sul a sediar o evento. 
No dia seguinte, a Moddy’s colocou os ratings das duas empresas sob revisão. A situação dessas construtoras não é fácil nem simples de ser avaliada, considerando que outros capítulos mais nebulosos podem surgir, destacam especialistas. 
Dizem que elas podem ter problemas, por exemplo, para contrair empréstimos no mercado e até mesmo para dar prosseguimento às obras em que já se comprometeram.

A situação é mais complicada, inclusive, destacou, Cláudio Frischtak, da Interb Consultoria, porque afeta principalmente a imagem dessas empresas com o mercado financeiro, dificultando a obtenção de capital de giro — e empresas desse porte necessitam muito de crédito para capital de giro. Para Frischtak, não é descartado, por exemplo, um cenário em que a prefeitura do Rio de Janeiro se veja obrigada a contratar outras empreiteiras para dar prosseguimento às obras da Olimpíada.

Considerando a complexidade das obras e o know-how oferecido por essas empresas, além da também complicada situação de outras empreiteiras do país, algumas em recuperação judicial, talvez não seja tão fácil. Isto porque ainda estamos a 410 dias para a Olimpíada. 

A Andrade Gutierrez e a Odebrecht têm participação nas obras da Linha 4 do metrô, do Porto Maravilha, do BRT Transolímpico, do VLT Carioca, da despoluição das Lagoas da Barra, da Vila dos Atletas, do Parque Olímpico da Barra e da Duplicação do Elevado do Joá.
De acordo com a Moody’s, os ratings das duas construtoras podem ser rebaixados, se verificado o aumento dos riscos das investigações da Lava Jato como, por exemplo, redução da liquidez para fazer frente às dívidas ou redução significativa no portfólio de projetos, com maior alavancagem — relação entre patrimônio e dívida — e perfil de negócios mais fraco.

A agência colocou sob revisão para possível rebaixamento os ratings da Odebrecht Engenharia e Construção (OEC) — rating de emissor na escala nacional brasileira, de Aa1.br, e o de emissor Baa3 na escala global. O próximo vencimento no mercado de dívida da empresa é em 2018, informou a agência de uma emissão de R$ 500 milhões em notas seniores sem garantia, de rating Baa3.

A Moody’s salientou ainda que trata-se da maior companhia de engenharia e construção da América Latina, com receita líquida de R$ 32,8 bilhões em 12 meses encerrados em março, com contratos que somam R$ 108,7 bilhões e 186 contratos envolvendo construção de larga escala, 26% deles no Brasil. 

Em março, o caixa da companhia somava R$ 13,3 bilhões e a dívida bruta total de era de R$ 10,7 bilhões.

Acusada de formação de cartel, a Odebrecht também pode sofrer uma multa de até R$ 1,4 bilhão no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), valor que equivale a 20% do faturamento da Construtora Norberto Odebrecht (CNO). 

O Cade tem indícios que apontam que a Odebrecht teria um papel significativo no “cartel das empreiteiras”, com pelo menos 19 documentos apontando a participação da companhia.

No caso da Andrade Gutierrez, a Moody’s colocou em revisão os ratings corporativo, em Ba2, e o de emissor, de Ba2. Para a agência, US$ 500 milhões em bônus seniores sem garantia e com vencimento em 2018 poderiam sofrer impacto. 

O Cade também pode cobrar uma multa de até R$ 860 milhões da empresa, com base em pelo menos 10 documentos que apontariam sua participação no cartel.

Para Cláudio Frischtak, as buscas e as prisões feitas podem afetar negativamente a imagem dessas empresas. Ele destaca, em primeiro lugar, que se trata de empresas extremamente grandes, muito diversificadas e com muitas obras no Brasil e no exterior. 

No curto prazo, acredita, seria “muito difícil” que esses eventos afetem efetivamente essas empresas, a ponto de colocar em xeque a execução das obras. A médio e longo prazo, porém, tudo depende dos desdobramentos da Operação lava Jato, e ninguém sabe até “onde isso vai”.
O ponto mais importante, aponta Frischtak, é como o mercado financeiro, os bancos em particular, o mercado de capitais, vão perceber esse cenário e se isto vai causar constrangimento no acesso ao crédito. “Ainda que sejam empresas grandes, nenhuma empresa hoje pode viver sem crédito. Essa operação [Lava Jato] já causou e tem causado restrições de crédito às empresas envolvidas, ou percebidas como envolvidas”, destaca.

Frischtak lembra que as construtoras são muito intensivas em capital de giro, necessitam de recursos para contratar, por exemplo, contratar milhares de fornecedores, direta ou indiretamente, atividades que requerem um fluxo constante de caixa. 

Como sempre existe diferença entre o momento de pagamento pelos serviços e momento de desembolso dessas empresas, elas também são dependentes do capital do crédito para capital de giro.

“Eu não vejo nenhuma empresa abandonando canteiro de obra no Rio por conta disso. (…) Se houver algum tipo de impedimento, seja legal seja financeiro — isso eu não estou prevendo –, a Prefeitura, dado o compromisso com a realização dos jogos, eu não vejo a prefeitura titubear em substituir [as empreiteiras], caso haja necessidade”, acredita Frischtak.

Leila Almeida, gerente de análise de investimentos da Lopes Filho & Associados, também destacou que se trata de uma situação muito difícil de avaliar, porque são as duas maiores empreiteiras do Brasil. 

“Claro que elas têm equipes próprias para cada tipo de negócio, [mas esse tipo de situação] sempre afeta, porque as pessoas ficam com um sentimento abalado, as pessoas não conseguem trabalhar com sossego, sempre acaba afetando. Mas como são as duas maiores do Brasil, a gente tem que acreditar que muita coisa não sofra descontinuidade, se não isso para o Brasil.”

Para Leila, é bem claro que há riscos com o cenário atual, dado que os desdobramentos da Operação são mais um episodio que vem se juntar a outros, o que “torna a situação da atividade econômica brasileira ainda mais problemática”.

A Autoridade Pública Olímpica salientou por meio da assessoria de imprensa, que a entidade monitora o andamento das obras, e deve publicar seu próximo relatório sobre o andamento do cronograma no dia 28 de julho.

Procurada a assessoria de imprensa da Andrade Gutierrez informou que a empresa “tem tamanho e escala significativos, como a segunda maior empresa de construção civil do Brasil, e está inserida em um dos maiores e mais sólidos grupos de infraestrutura da América Latina”. 

“Portanto, até o momento, nenhum dos projetos que lidera sofreram qualquer impacto em decorrência da Operação Lava Jato. Todas seguem cronograma e escopo definidos pelos clientes.”

A empresa voltou a destacar ainda que “não tem ou teve qualquer relação com os fatos hoje investigados pela Operação Lava Jato.”

A Odebrecht, por sua vez, destacou pela assessoria de imprensa que “todas as obras da Olimpíada sob responsabilidade da Odebrecht prosseguem normalmente e sem atrasos”.

HW COMUNICAÇÃO com Jornal do Brasil

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