É debaixo de uma lona preta de pouco mais de dez metros quadrados e chão de terra batida que Isabele Fernandes, de sete anos, estuda e sonha em ser professora. Ele divide o mesmo espaço com outras 50 crianças que ficaram fora da sala da aula depois que a Escola Municipal Maria Emília Maracajá, onde elas estudavam, fechou as portas há pouco mais de um mês. A unidade fica no sítio São José, Zona Rural do município de Areia, no Brejo paraibano, a 130 km de João Pessoa. E a decisão é irrevogável, disse o prefeito João Francisco, que já fechou mais de dez escolas em um ano de mandato.

A escola de lona erguida com bambus surgiu após três professoras se solidarizarem com as crianças, que ficariam fora das salas de aula. A iniciativa partiu da professora Fabiana Batista. Ela iniciou uma campanha nas redes sociais e conseguiu, em pouco tempo, a ajuda para ‘abrir’ a unidade em busca de um futuro melhor.

“Foram várias doações e ainda continuamos recebendo. Fiz um apelo no Facebook que ganhou uma proporção grande. Conseguimos a lona, material didático, cadeiras, mesas e comida para o lanche das crianças. Quando os alunos querem ir ao banheiro, vamos até a casa de uma vizinha, que cedeu o espaço. Infelizmente a escola fechou e o prefeito já disse que não vai reabri-la. Os pais não querem que os seus filhos estudem longe das casas devido à violência e outros fatores. Então, para as crianças não ficarem sem aula, decidimos montar essa estrutura”, explicou a professora.


A agricultora Ana Karla, mãe de uma aluna, disse que essa situação é triste. “Não temos condições de colocar nossos filhos em outra escola. Sabemos a falta de estrutura das estradas, além do mais tem o problema de adaptação. Vamos continuar aqui debaixo da lona até que essa situação tenha um final feliz”, avisou.

Com a ajuda de Ana Karla e outras dezenas de pais, ao pôr do sol, a escola é desmontada e cada um assume sua tarefa diária. “Todos os dias, os pais vêm pegar os filhos e ajudam a carregar as cadeiras, mesas e o material didático para um local cedido pela vizinha. Estamos sobrevivendo de doações”, lamentou a professora Fabiana.


A escola foi fechada há um mês e, mesmo com o cadeado no portão principal, uma antena de distribuição de internet foi instalada pela prefeitura recentemente.

O vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Públicos Municipais do Agreste da Borborema (Sintab), Geovanne Freire, revelou que a entidade solicitou uma audiência com a Prefeitura de Areia, mas até agora não obteve resposta. Freire disse que já acionou o Ministério Público da Paraíba (MPPB) e o Ministério da Educação (MEC) sobre o fechamento das escolas na Zona Rural do município.

“Está ocorrendo aqui o êxodo rural. O prefeito quer que as crianças saiam do campo e vão estudar na Zona Urbana, fazendo com que elas percam as suas identidades. Isso é um dos fatores que os pais não querem. Já acionamos o MPPB e MEC para pedir explicação de por que mesmo com a escola fechada a internet foi instalada recentemente e ainda as crianças constam como matriculadas. Para o MEC, a unidade está em pleno funcionamento”, avisou o vice-presidente.

O prefeito João Francisco falou à reportagem que há um plano na administração dele que é acabar com o formato multisseriado, onde crianças de diferentes séries estudam na mesma sala. Para o gestor esse método de ensino é ‘indigno’ e ultrapassado.

“Essa metodologia está sendo extinta em vários municípios. Temos um plano de encerrar com todas as escolas esse modelo de ensino. Para isso, fornecemos ônibus com um monitor para o transporte das crianças para uma escola que fica a pouco mais de dois quilômetros de onde moram, mas os pais estão irredutíveis. Já acionei o MP sobre essa situação. Se a justiça determinar que eu reabra, daí cumprirei a determinação judicial”, falou o prefeito.

O gestor avisou que o fechamento das unidades em Areia está embasado em orientações do MEC, Conselho de Educação da Paraíba e do Município e atendendo a um requerimento dos vereadores locais.

O MPPB, através do promotor de Educação de Areia, Nilton Chagas, já recebeu a denúncia sobre o caso e faz levantamento das informações para marcar uma reunião.

HW COMUNICAÇÃO

Fonte: Portal Correio

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